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Inovação e Tecnologia na Saúde

O futuro do home care e das ILPIs: como a IA transformará o cuidado até 2036

Descubra como o envelhecimento populacional, a inclusão digital e a inteligência artificial poderão transformar o home care e as ILPIs nos próximos dez anos.

9 de outubro de 2026 · Coordenação Lookcly · 9 min de leitura

O envelhecimento da população, a redução das barreiras digitais e a inteligência artificial estão criando um novo cenário para o mercado de cuidados. As empresas que se prepararem agora poderão estar mais bem posicionadas para atender às necessidades de uma geração que envelhecerá de maneira diferente.

O idoso de 2036 será diferente do idoso de hoje

O Brasil está passando por uma transformação demográfica que afetará profundamente a saúde, a economia, as relações familiares e o mercado de cuidados.

Estamos vivendo mais, enquanto as famílias estão menores e as estruturas tradicionais de cuidado passam por mudanças. Consequentemente, a necessidade de serviços que apoiem a autonomia, a segurança e a qualidade de vida das pessoas idosas tende a ganhar cada vez mais importância.

A Organização Mundial da Saúde destaca que o envelhecimento populacional exige uma transformação dos sistemas de cuidado e apoio, incluindo a ampliação de serviços integrados de longa permanência e o fortalecimento do cuidado centrado na pessoa.

Fonte: Organização Mundial da Saúde — Transformação dos sistemas de cuidado para pessoas idosas, 2024.

Mas existe uma questão que merece atenção: as pessoas que hoje têm 50 ou 60 anos serão os idosos de uma sociedade muito mais digitalizada.

Muitas delas já utilizam aplicativos bancários, realizam compras pela internet, fazem videochamadas, utilizam serviços digitais e acompanham informações pelo celular. Outras já estão experimentando ferramentas de inteligência artificial.

Isso não significa que todas terão facilidade com a tecnologia. Desigualdades de renda, escolaridade, acesso à internet e condições de saúde continuarão influenciando essa relação.

Entretanto, é razoável esperar que parte significativa dos futuros idosos tenha expectativas diferentes em relação à conveniência, à comunicação e ao acesso aos serviços.

O chamado analfabetismo digital poderá diminuir em determinados grupos, enquanto novas dificuldades surgirão. Saber utilizar um aplicativo hoje não significa necessariamente compreender como proteger os próprios dados, identificar uma fraude digital ou avaliar uma informação produzida por inteligência artificial.

O desafio será promover a inclusão digital sem transformar a tecnologia em mais uma barreira.

O cuidado com idosos também precisará evoluir

Durante muito tempo, parte do mercado de cuidados foi organizada em torno de processos predominantemente manuais, registros em papel, comunicação fragmentada e dependência da memória dos profissionais.

Esse modelo poderá se tornar cada vez mais difícil de sustentar diante do crescimento da demanda, da complexidade dos cuidados e da necessidade de utilizar melhor os recursos disponíveis.

Nos próximos dez anos, podemos observar uma integração progressiva entre profissionais de saúde, sistemas de gestão, dispositivos conectados, inteligência artificial e informações sobre a rotina da pessoa idosa.

O objetivo não deverá ser simplesmente digitalizar documentos. Será necessário melhorar a maneira como o cuidado é planejado, executado, acompanhado e avaliado.

Imagine, por exemplo, uma pessoa idosa que recebe atendimento domiciliar.

Em vez de depender exclusivamente de anotações isoladas, a equipe poderá utilizar um sistema integrado para acompanhar o plano de cuidados, registrar as visitas, organizar informações relevantes, identificar pendências e compartilhar atualizações autorizadas com a família.

A inteligência artificial poderá ajudar a resumir registros, organizar informações e sinalizar padrões que mereçam avaliação profissional.

Essas possibilidades já são objeto de pesquisas, embora sua eficácia, segurança e viabilidade variem conforme a aplicação. Uma revisão publicada em 2025 na revista The Gerontologist analisou aplicações atuais e perspectivas da inteligência artificial para apoiar o envelhecimento no próprio domicílio.

Fonte: The Gerontologist — Artificial Intelligence and Aging in Place, 2025.

Home care: de prestador de serviços a gestor integrado do cuidado

O home care do futuro poderá ir muito além da organização de escalas e do envio de profissionais à residência do paciente.

A tendência é que as empresas capazes de integrar assistência, informação e acompanhamento tenham mais ferramentas para organizar suas operações e demonstrar a qualidade do serviço prestado.

Entre as transformações possíveis estão:

1. Planejamento mais inteligente das equipes

Sistemas poderão auxiliar na organização das escalas, na distribuição de profissionais, no planejamento de deslocamentos e na identificação de conflitos operacionais. A decisão final continuará dependendo de critérios assistenciais, trabalhistas e humanos.

2. Registros assistenciais mais organizados

Ferramentas de inteligência artificial poderão auxiliar na elaboração de resumos, estruturação de informações e identificação de registros incompletos, desde que haja validação profissional e proteção dos dados.

3. Monitoramento remoto quando indicado

Dispositivos conectados poderão acompanhar parâmetros específicos e transmitir alertas conforme protocolos previamente definidos. Isso não significa monitoramento contínuo para todos os pacientes, mas a possibilidade de utilizar recursos proporcionais às necessidades individuais.

4. Comunicação mais eficiente com as famílias

Portais e aplicativos poderão facilitar o acesso autorizado a informações sobre visitas, atividades previstas e atualizações relevantes do cuidado, respeitando o sigilo profissional e a privacidade.

5. Gestão baseada em indicadores

As empresas poderão acompanhar com maior precisão indicadores operacionais e assistenciais, identificar gargalos e avaliar oportunidades de melhoria.

O diferencial competitivo não estará apenas em utilizar inteligência artificial. Estará em saber integrá-la aos processos sem comprometer a segurança, a qualidade e a humanização.

ILPIs: instituições de longa permanência precisarão repensar sua proposta de valor

As Instituições de Longa Permanência para Idosos também poderão passar por mudanças importantes.

A transformação não será apenas tecnológica. Envolverá arquitetura, acessibilidade, composição das equipes, atividades, participação familiar, organização dos cuidados e respeito à autonomia dos residentes.

Uma ILPI preparada para o futuro poderá utilizar sistemas integrados para acompanhar informações assistenciais, organizar rotinas, registrar intercorrências e monitorar indicadores de qualidade.

Sensores ambientais, dispositivos de chamada e tecnologias de apoio poderão contribuir para a segurança, desde que sejam adequados ao ambiente e utilizados com respeito à privacidade e à autonomia.

A inteligência artificial poderá auxiliar na identificação de tendências nos registros, como a recorrência de quedas ou alterações que justifiquem uma avaliação da equipe. Entretanto, nenhum alerta automatizado deve ser tratado isoladamente como diagnóstico ou substituto da avaliação clínica.

Outra transformação possível é a ampliação dos modelos de atendimento. Algumas organizações poderão combinar moradia, atividades de convivência, reabilitação, serviços diurnos e diferentes níveis de suporte, de acordo com as necessidades locais e as exigências regulatórias.

A pergunta que os gestores precisam fazer não é somente quantos leitos possuem ou quantos profissionais estão disponíveis.

É também: como podemos oferecer um cuidado mais seguro, individualizado, transparente e sustentável?

A inteligência artificial substituirá profissionais que cuidam de idosos?

Essa é uma das questões mais importantes — e merece uma resposta sem exageros.

O cuidado de uma pessoa idosa envolve observação, julgamento clínico, vínculo, comunicação, tomada de decisão e compreensão do contexto familiar. Essas dimensões não podem ser reduzidas a uma sequência de tarefas automatizáveis.

A inteligência artificial poderá assumir ou facilitar determinadas atividades administrativas, organizar informações, apoiar o planejamento e auxiliar profissionais na identificação de situações que precisam de atenção.

Isso poderá modificar algumas funções e exigir novas competências das equipes.

Um profissional que utiliza ferramentas digitais de maneira adequada poderá dedicar menos tempo a determinadas tarefas burocráticas e mais tempo às atividades que exigem presença, raciocínio e interação humana.

Por outro lado, o uso inadequado da tecnologia poderá gerar erros, excesso de alertas, registros imprecisos e dependência de sistemas que nem sempre compreendem o contexto de cada pessoa.

Por isso, a transformação mais relevante não será necessariamente a substituição de profissionais, mas a redefinição da maneira como eles trabalham.

A tecnologia deverá apoiar o cuidado, não determinar sozinha o que é melhor para uma pessoa.

O desafio será integrar tecnologia, pessoas e processos

Implementar inteligência artificial em uma empresa de home care ou em uma ILPI não significa simplesmente contratar um aplicativo ou instalar um sistema.

A transformação exige processos bem definidos, informações confiáveis, treinamento das equipes, critérios de acesso, proteção de dados e acompanhamento dos resultados.

Também será necessário considerar a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), especialmente porque informações de saúde são dados pessoais sensíveis.

Empresas que adotarem novas ferramentas precisarão avaliar a segurança das informações, a finalidade do tratamento, os acessos autorizados e os riscos envolvidos.

Outro ponto importante será a inclusão. Sistemas projetados para profissionais e gestores também precisarão considerar idosos e familiares com diferentes níveis de familiaridade digital, limitações visuais, auditivas ou motoras.

Uma tecnologia realmente útil não é aquela que possui o maior número de funcionalidades. É aquela que resolve problemas reais e pode ser utilizada com segurança por quem precisa dela.

O que as empresas de home care e ILPI podem fazer desde agora?

Não é necessário esperar até 2036 para começar essa transformação.

Algumas medidas podem ser adotadas imediatamente:

A Organização Mundial da Saúde, em sua publicação de 2024 sobre cuidados de longa duração, reforça a importância de estruturar serviços integrados e adaptados às necessidades das pessoas idosas.

Fonte: OMS — Long-term care for older people: package for universal health coverage, 2024.

O futuro não será apenas tecnológico. Será também humano.

Ao imaginar o mercado de cuidados em 2036, é fácil pensar em robôs, sensores, algoritmos e sistemas automatizados.

Mas a transformação mais importante talvez esteja na maneira como a sociedade compreenderá o envelhecimento.

As pessoas idosas continuarão precisando de atenção, respeito, segurança, autonomia e vínculos humanos. Suas necessidades serão diversas, assim como suas condições de saúde, suas histórias e suas preferências.

Algumas desejarão permanecer em casa com apoio profissional. Outras precisarão de cuidados mais intensivos ou de uma instituição de longa permanência. Muitas transitarão entre diferentes modalidades ao longo da vida.

Nesse cenário, empresas de home care e ILPIs precisarão combinar competência assistencial, gestão eficiente, tecnologia responsável e capacidade de adaptação.

Aquelas que começarem a rever seus processos desde agora terão mais condições de aprender, testar soluções e se preparar para as mudanças, sem depender de previsões certeiras sobre como será o mercado.

A tecnologia poderá transformar a forma de cuidar. Mas o propósito continuará sendo o mesmo: oferecer às pessoas mais segurança, dignidade e qualidade de vida.

A pergunta que fica é: sua empresa está se preparando para o idoso de hoje ou para a geração que precisará dos seus serviços daqui a dez anos?

Escrito por:

Deivid de Mello Machado - Enfermeiro e fundador da Lookcly Gestão em Saúde e SaúdeMVP.

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